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A produção textual está entre as inúmeras coisas que foram “chacoalhadas” pelo advento da internet. E esse “chacoalhão” vai muito além do internetês trazido pelo e-mail e pelos programas de mensagens instantâneas. Talvez porque ler na tela do computador seja meio incômodo, talvez pelo próprio ritmo frenético da vida moderna, os textos veiculados pela internet são mais ágeis, diretos, informais e descompromissados do que os que se vê em publicações “ordinárias” (entre aspas, porque já é possível chamar a publicação virtual de “ordinária” e a publicação em papel de “tradicional”). É possível dizer que foram criados certos parâmetros para produção de textos veiculados pela internet que são seguidos pelos usuários de forma inconsciente.
A chamada blogosfera é muito mais vasta do que ordinariamente consideramos. Pelo fato de qualquer pessoa com acesso à internet poder ter e manter um blog há certa estigmatização dos textos que circulam por esse meio. Por muito tempo o blog foi simplesmente um instrumento de publicação de diários pessoais ou devaneios pretensamente literários para possíveis interessados. Houve, contudo, notável aumento na quantidade de blogs que funcionam como verdadeiros portais de informação e entretenimento, com altíssimos números de visitas diárias. O alto número de visitantes atrai atenção de anunciantes, que pagam para os blogueiros bem-cotados manterem anúncios na página. Manter anúncios de empresas privadas no blog é a chamada “monetização” da página. De modo geral, essa renda funciona mais como um plus no orçamento do que um modo de ganhar a vida, mas há exceções. Os blogueiros que vivem da renda da monetização do blog são chamados “probloggers”. Os probloggers, por definição, levam a atividade blogueira a sério, mas não são os únicos a fazer isso. Inúmeros blogueiros se esforçam para manter certo padrão de qualidade nos seus blogs sem lançar mão da monetização, ou estão na seara dos que o fazem somente por um extra no fim do mês. Interesses não (diretamente) financeiros podem estar envolvidos na atividade. Os blogs podem funcionar como uma eficiente ferramenta de marketing pessoal, onde pessoas competentes apresentam o domínio que têm sobre certos tipos de conteúdo e ganham projeção no meio. Blogueiros respeitados que fazem resenhas de filmes ganham convites exclusivos para pré-estreias ou contratos com produtoras/distribuidoras que lhes emprestam, sem custo algum, um sem-número de filmes para que assistam e resenhem. Blogueiros críticos literários ganham livros das editoras e convites exclusivos para eventos correlatos, com hospedagem e alimentação pagas pelos organizadores. Claro que estamos falando de uma parcela muito pequena do todo da blogosfera. Mas essa minoria de blogueiros lança mão de uma infinidade de artifícios textuais que servem como guia, como parâmetros para a produção de texto em blog, e criam um modelo textual particular. Para chegar onde chegaram eles ousaram, experimentaram, inovaram, transitaram entre vários estilos até sintonizarem com a predileção dos seus leitores, que, de modo geral, mostram mais aceitação a um registro linguístico informal porém bem estruturado, com opções lexicais passeando entre o chulo e o culto, consoante a necessidade do assunto então tratado. Há quem diga que os que compõem essa “elite blogueira” fazem um competente uso da língua e são, de fato, os escritores da nova era. Só não são chamados de “escritores” por causa do ainda resistente liame entre o vocábulo e as páginas impressas e prateleiras. Eles estão na vanguarda da formação estilística de um tipo muito peculiar de mídia, que corteja seus próprios maneirismos e “idiossincrasias textuais”. A aposta da editora Companhia das Letras talvez sirva para ilustrar a heterogeneidade entre a página do livro e a página da web, e que fenômenos como o de Bruna Surfistinha ainda são casos isolados. Recentemente a empresa se lançou num projeto de ‘trazer para o livro o texto do blog’ e ‘levar para o blog o texto do livro’. Os textos de blog publicados em livros da editora apresentaram popularidade muito longe da esperada, e o mesmo ocorreu ? em menor intensidade ? na experiência inversa, na qual escritores (como Lourenço Mutarelli) ganharam da editora pequenas temporadas em cidades estrangeiras (como Nova Iorque) em troca de manter cadência de posts sobre a viagem num blog durante a estadia.
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